16 de fevereiro de 2009

A Vida Que a Fé Produz

Ézio Pereira da Silva

Por mais que possa parecer, ainda que o justo seja levado de roldão na manifestação do juízo temporário de Deus e seja por ele atingido, o justo nunca perecerá como nem com o ímpio, porque o que se tem em vista não é o aspecto físico do ser humano, mas a eternidade. O que realmente conta é o juízo final, definitivo.
Os juízos provisórios aplicados por Deus podem atingir os justos, ou as consequências do ajuizamento do Senhor podem resultar em rebarbas que faiscantemente atinjam os justos.
No fim de tudo, no entanto, se verá claramente a “diferença entre o justo e o perverso, entre o que serve a Deus e o que não o serve” (Ml 3.18). Há exemplos disso nas Escrituras.
Entre os cativos que foram levados para Babilônia estavam justos como Daniel e seus três companheiros Ananias, Mizael e Azarias, conhecidos como Sadraque, Mesaque e Abede-Nego. Eram justos, mas achavam-se escravizados em Babilônia e envolvidos pelo juízo de Deus que se abatera sobre Judá e Jerusalém.
Nas regiões da sombra da morte, de que fala Mateus 4.16, viviam José, Maria (mãe de Jesus), Isabel, o sacerdote Zacarias, a profetiza Ana e outros justos que esperavam a redenção de Israel, mas estavam (expatriados) e sofrendo um regime de semi-escravidão por causa dos juízos e da justiça de Deus sobre Israel.
As crianças daqueles que eram destruídos por Deus sofriam conseqüências trágicas e não raro a morte. Eram inocentes e, por isso mesmo, justas.
Deus, quando se trata da preservação de pessoas, não dá o mesmo nível de tratamento como o que é utilizado com relação à eternidade. O foco de sua atenção quanto a preservar e manter a vida, está centralizado na vida após a morte.
Daí que podemos compreender porque Deus, não raras vezes, permite e até determina e estimula o sofrimento humano. A finalidade é pacífica e salutar, porque tem em perspectiva a vida futura. Nosso reino e nossa pátria não são nem estão neste mundo.
Por essa razão é que Deus responde à indagação de Habacuque em termos que lhe desagradaram, deixando-o perplexo. Porque o profeta, a princípio, tinha em vista apenas o aspecto físico, a preservação da vida física e do corpo. Não visava o espiritual, o sobrenatural.
Ao trazer o juízo sobre Judá, Deus, pelo contrário, não considerou o físico e, sim, o imaterial, incorpóreo, tendo em conta que os caldeus que viriam justiçar Judá, também, atingiriam fisicamente os justos.
Naquela altura então, Deus traz uma revelação que provavelmente tenha consolado o desapontado profeta: “o justo viverá pela fé” (Hc 2.4). Em outras palavras, estava dizendo a Habacuque que, ainda que o justo fosse atingido e chegasse até mesmo à morte física, contudo ele haveria de viver eternamente pela sua fé. Isto é, teria uma vida de qualidade incomparavelmente melhor e eterna se permanecesse fiel, vivendo em fidelidade.
Naquele contexto histórico, Deus poderia utilizar a fé do justo, tanto para preservá-lo do perigo iminente que se abateria sobre Judá, como para deixá-lo sucumbir (já que possuía o trunfo da fé) e galardoá-lo com a vida futura.
É necessário depreender do texto de Habacuque um conceito mais elevado, tanto da vida, muito além de seus aspectos físicos, quanto da fé, que extrapola os limites da preservação da vida temporal. Russell N. Champlin disse que “a vida na direção da qual o crente é dirigido pela fé é a vida eterna”.
Certamente poderá se argumentar que Noé foi preservado no dilúvio e Ló da destruição de Sodoma. É verdade! Mas, nestes casos, e em vários outros relatados na Bíblia, Deus tinha papéis importantes e projetos específicos para aquelas personagens.
Há propósitos de Deus para ambas as situações. Isso é que precisamos compreender, para não termos um conceito equivocado de Deus, nem sermos apanhados de surpresa ou nos escandalizarmos com aquilo que ele faz ou deixa de fazer. Em qualquer situação e circunstância prevalece a sua soberania, amor, justiça, sabedoria, coerência e fidelidade.
Por que parece que os perversos triunfam sobre os justos? Por que muitas vezes os maus possuem regalias e vivem bem e os santos do Altíssimo não? São indagações que carecem de resposta.
A razão é que os ímpios estão desfrutando os benefícios do seu reino passageiro e só das coisas materiais desta vida, abaláveis e que não possuem reflexos positivos na eternidade. Os santos não! Estes estão aguardando um reino inabalável e que não será destruído jamais. É eterno!
A passagem de Habacuque focaliza a vida presente, apenas em parte, conforme podemos perceber, pela deportação dos justos, acima referidos, para Babilônia. O significado mais profundo, parece ter ficado momentaneamente aquém da compreensão do profeta.
O apóstolo Paulo (Rm 1.17; Gl 3.11) e o escritor de Hebreus (Hb 10.38) aplicaram o mesmo texto à vida futura, reinterpretando a profecia, dando-lhe um sentido mais completo, exato, profundo e elevado. Exatamente aquilo que Deus havia proferido.
A perspectiva é a da vida eterna. Se o justo era justo pela fé em um Deus sabidamente bom, esse justo deveria compreender, também, este ato de justiça de Deus em sua manifestação física.
Portanto, sem desconsiderar que vivemos na terra, não permitamos que nossas mentes, ações e motivações estejam niveladas ao secular, à vida terrena. Esta é transitória. Porém, a celestial e futura, que aguardamos, é eterna.