14 de fevereiro de 2009

A Fé

Ézio Pereira da Silva

A fé de uma pessoa leva Deus a agir em seu favor, atendendo-lhe as petições, independentemente de sua obediência à palavra de Deus. Confere com isso a observação que Jesus fará no último dia, quando disser "... nunca vos conheci. Apartai-vos de mim vós que praticais a iniqüidade"(Mt 7.23).

Este texto revela que muitos terão fé para fazerem muita coisa ou receberem algo de Deus, sem, contudo, terem compromisso com a obediência a ele.

A pessoa aprovada por Deus não é a que tão somente possui fé, mas aquela que, em decorrência da fé, obedece e guarda os seus mandamentos. Inicialmente, a fé deve entrar como ponto de partida para agradar a Deus. A partir do momento em que alguém lhe agrada, ele realiza qualquer coisa na sua vontade perfeita e soberana e seu propósito. Não antes disso!

Deus pode (ele é soberano para isso) realizar algo sem que seja do seu agrado. Foi o caso da escolha de Saul como rei de Israel. Não lhe agradou o pedido - quase exigência - do povo que Samuel lhe constituísse um rei como as demais nações. Entretanto, Deus assim o fez.

Pode ocorrer, por outro lado, de Deus agradar-se algo realizável, mas que ele não faz, em vista de seu conhecimento total, perfeito e prévio de todas as coisas. Embora possuindo caráter agradável, contudo ele pode deixar de realizar, em razão de outros fatores tais como: ocasião oportuna, propósito ou finalidade, forma, quem vai fazer ou através de quem ele vai fazer, etc.

Existem casos de cura ou de solução de problemas que Deus opera simplesmente por causa de sua misericórdia, tendo em vista o seu caráter complacente e misericordioso e o estado lamentável em que a pessoa se encontra; e não necessariamente por causa da fé.

Evidentemente, não se pode negar a profusão de ações malignas, realizadas até mesmo em nome de Deus, a fim de tornar uma pessoa acreditar em um ensinamento contrário à sua palavra, com conseqüências e desdobramentos mortais e eterno. Contudo, não podemos creditar ao diabo tudo que ocorre em termos de milagres, ainda que fora dos arraiais evangélicos, mesmo sem a obediência a Deus. Isto porque Deus não se circunscreve apenas ao nosso meio. Não está limitado às igrejas evangélicas. Por isso, a nossa imprescindível e indelegável necessidade de discernimento.

Apesar de o nosso inimigo possui muito poder, existem, porém, certos milagres, das mais variadas espécies, que só Deus pode realizar.

Seria possível alguém obedecer a Deus sendo possuidor de fé ínfima? Parece que foi o caso do pai do garoto que estava possesso por um espírito imundo ao exclamar: "ajuda-me na minha falta de fé" (Mc 9.24).

Hebreus 11.1 diz que "sem fé é impossível agradar a Deus". Mas isso é apenas uma possibilidade de se agradar a Deus pela fé, ou com a fé. Ou seja, parece que a fé simplesmente, desacompanhada da obediência, isolada, não agrada a Deus na sua vontade perfeita. Realmente, sem fé é impossível agradar a Deus, mas não basta só a fé para lhe agradar. Parece que a fé apenas abre a possibilidade de se agradar a Deus. Não implicando em obrigação sua de realizar algo.

É necessário que a fé seja acompanha pela obediência e pelas obras correspondentes. Daí é que Tiago fala que a fé deve ser acompanhada pelas obras. De outro lado, pode-se entender que a fé isoladamente, ainda que sem obediência, conquiste certas bênçãos de Deus, levando-o a agir em favor de uma pessoa, mesmo que esta não lhe obedeça. E aí, nesse caso, Deus pode agir em função não da obediência, mas da fé (esta, acompanhada pela ação que a caracteriza e a efetiva).

Assim, Deus agiu de uma forma que não lhe agradou, mas por honra à fé, como se ele fosse forçado a agir em decorrência de uma fé. Mesmo assim, a fé concretizada por uma obra, também, por si só, pode não agradar a Deus. Pode ser algo feito contra ou à revelia da vontade de Deus.

Se à fé e à obra adicionarmos a obediência, ainda assim a realização de alguma coisa pode ser desagradável a Deus, como foi o caso de Balaão. É necessário, para se completar o ciclo, juntar a fé, a obra, a obediência e colocar estes três fatores sob a vontade perfeita de Deus, pois, sem esta, pode se incorrer na sua vontade permissiva, a qual não lhe agrada, mas lhe é aceitável por opção ou para corrigir certas situações.

Dentro desse aspecto, está localizada a fé comum da salvação. Por isso, é que dizer, no último dia "Senhor, Senhor, não profetizamos em teu nome e em teu nome não fizemos muitas maravilhas? (Mt 7.22)", de nada adiantará para aqueles que não obedeceram o evangelho.

Quando Paulo, fala da vingança de Deus, em 2 Tessalonicenses 1.8, ele se refere àqueles que não obedecem ao evangelho. Não àqueles que não têm fé, apesar desses também estarem envolvidos, pois, como disse antes, pode-se ter fé e não ter obediência. É o caso que Tiago cita a respeito dos demônios que, mesmo possuidores de fé e temor, estão condenados.

Parece-me que a fé é neutra. É um instrumento de toque, de contato, da ação de Deus. Ela pode gerar a obediência ou não (Rm 1.5).

A fé em Deus pode ser apenas para benefícios materiais, não implicando necessariamente em obediência para a salvação. É caso da Teologia da Prosperidade.

Não entendo nem penso que todos os milagres, realizados extra mensagem do evangelho, quaisquer que forem eles, sejam feitos por demônios, por auto-sugestão, por meios naturais ou, ainda, por fatores psicológicos. Acredito que alguns deles são realizados por Deus, atendendo unicamente à fé. 

É o que poderíamos chamar de "a chuva sobre os justos e injustos". Alguns milagres Deus realiza não pretextando a salvação da pessoa (ainda que ele sempre a deseje), mas por seu amor e misericórdia.

Parece que a fé não é santa e nem profana. Poderia ser uma capacidade que Deus dá a alguém, a fim de ser realizada alguma coisa em um determinado momento, em um contexto definido, numa situação específica e com um propósito certo. Daí que alguém que não obedece a Deus ou, às vezes, nem acredita na sua existência como o entendemos, pode, por um ato de fé que não conseguimos explicar totalmente, operar determinados feitos, sem que haja qualquer compromisso da parte de Deus em salvá-lo, mesmo diante daquilo que foi realizado. Fé para transportar montanha é diferente da fé salvadora. Por isso, milagres podem ocorrer independentemente da salvação.

A desesperada e pavorosa súplica "Senhor, Senhor..." (Mt 7.21-23) deixará de existir, se a fé for acompanhada da obediência.

A fé não é uma pessoa, uma entidade ou um ser. A fé é um estado de espírito, de alma ou de ambos, em um momento cronológico ou histórico, proporcionado por Deus para realizar determinados atos, segundo a sua vontade soberana.

Quando Paulo disse que " o deus deste mundo cegou o entendimento dos incrédulos..." (2 Co 4.3), ficou claro que, antes da cegueira veio a incredulidade. Depois de não haver dado crédito à palavra de Deus, o homem fica com o seu entendimento natural, embotado, prejudicado e cego.

Contudo, existem pessoas que têm mais fé, crêem mais, na incredulidade que na própria fé; Há pessoas que são incrédulas (ou não acreditam) na fé e crêem na incredulidade. Crer na incredulidade é descrer na fé. Ter fé na incredulidade é descrer da fé.