16 de fevereiro de 2009

Ester e as Grandes Denominações *

Ézio Pereira da Silva

“Porque se de todo te calares agora, de outra parte se levantará para os judeus socorro e livramento...; e quem sabe se para tal conjuntura como esta é que foste elevada à rainha?” – Ester 4.14
A Bíblia revela claramente que Deus é soberano sobre todas as coisas e nada acontece sem que, de alguma forma, haja uma permissão dele, ainda que determinada ocorrência não seja de sua vontade perfeita. Isso é assim por causa do livre-arbítrio que Deus concedeu ao homem. Acredito que o que é verdade para pessoas como indivíduos, vale, também, para as instituições.
As grandes denominações instaladas atualmente no Brasil, em sua maioria, tiveram origem em outros países. Outras surgiram aqui. Todas elas, entretanto, por vontade e orientação de Deus, ou simplesmente por sua permissão, se desenvolveram e tornaram-se poderosas estruturas cristãs. Entre essas, existem as que nasceram no ardor da obra de missões mundiais.
Essa denominações, com raríssimas exceções, contam hoje com um bom testemunho do povo brasileiro e desfrutam da simpatia das comunidades onde estão localizadas. Mormente, por causa de sua penetração nas mais diversas camadas da sociedade. Hoje dominam parcela significativa dos meios de comunicação tais como rádio, TV, jornais e revistas. Além disso, às vezes destacam-se em programas sociais e até mesmo na política. Grande parte de seus líderes gozam de prestígio junto a uma parcela expressiva do público.
No entanto, digo com pesar, o mesmo não se pode afirmar das grandes denominações com respeito ao trabalho missionário. Isso porque, paralelo a esse desenvolvimento organizacional no período da história da igreja contemporânea, a obra missionária nem sempre tem podido contar com o apoio efetivo delas, cuja inexpressiva cooperação muito tem deixado a desejar. E os motivos são diversos.
Desde as mais variadas e inegáveis pressões e dificuldades criadas – que tem sido constante característica daquelas que estão cientes de sua responsabilidade com o mundo sem Cristo, para cumprirem sua missão nos lugares mais carentes e pobres, seja em outros estados ou no estrangeiro -, até a falta de interesse e de um amor maior que possam constrangê-las, ou mesmo por mero descaso, elas estão alheias à situação dos menos afortunados. Evidentemente, para a maioria delas, não é por falta de recursos humanos nem financeiros.
Poderiam alegar desconhecimento do grave estado de miséria e desprezo em que se encontram centenas e centenas de povos/nações inteiras espalhadas pelo mundo. Porém, esse não é mais o caso. Essa não é a questão. Não existe mais a falta de conhecimento. Inúmeras conferências missionárias, congressos e seminários têm sido realizados em todo o País, notadamente nos últimos 20 anos. Livros, jornais, revistas e boletins informativos se multiplicam a cada ano, além de um sem número de informações veiculadas pela Internet. Incontáveis e ardentes testemunhos de missionários têm sido ouvidos por milhares de líderes.
Apesar desse “boom” missionário em todo o País, a obra de Deus se ressente da cooperação das grandes denominações, cujas lideranças, sem um comprometimento real, têm relegado a obra de missões apenas a alguns poucos membros ou juntas missionárias, e os encarregam de tarefa tão imensa, enquanto que o grosso de seus esforços e de suas finanças são canalizados para realizações quase de nenhuma importância para o Reino de Deus. E isso é verdade, pelo menos do ponto de vista de Deus.
Outras utilizam as obras sociais como pretexto para se acomodarem à inércia e permanecerem na esterilidade. Ainda que as obras sociais fossem, de fato, uma realidade nessas denominações, o que não parece ser, mesmo assim elas não estariam isentas de sua missão principal. No entanto, a maior obra social que podemos realizar em favor de uma pessoa é resgatá-la das trevas. É conduzi-la a Jesus. A atividade básica para a qual a igreja foi instituída não são as obras sociais, mas a evangelização dos perdidos. Elas são de fato extremamente necessárias e mesmo imprescindíveis. Não devem no entanto substituir a razão da existência da igreja. As obras sociais são ornamentos e devem ser resultado da ação de se evangelizar os homens.
Em boa parte, as grandes denominações estão carregadas de supérfluos e duvidosos compromissos assumidos através dos anos, os quais nem sempre se traduzem em crescimento espiritual qualitativo, nem mesmo numérico, pois onde falta este não pode estar havendo aquele. Eles são recíprocos e caminham lado a lado; um é a causa do outro; um é imprescindível ao outro.
O exemplo de Ester retrata com muita propriedade a situação que estamos presenciando com respeito às grandes denominações. Penso que todos conhecem essa história. A jovem judia, com o favor de Deus, alcançou a privilegiada posição de rainha no reinado do poderoso rei persa Assuero. Entretanto, quando o povo de Deus (na época, os judeus) estava em perigo de ser exterminado por influência de Hamã, príncipe do reino de Assuero, Ester parecia apática, sem muita preocupação com aquilo que estava ocorrendo com o seu povo, mesmo apesar da insistência de seu primo, o judeu Mordecai (ou Mardoqueu) e de sua própria condição de pertencer à mesma raça.
A posição que Ester ocupava no trono junto ao seu marido dava lhe muito destaque no meio da sociedade em que vivia. Talvez por isso, durante algum tempo, permaneceu distanciada dos destinos de seu povo, que estava prestes a entrar em colapso total pelas mãos do traiçoeiro e invejoso Hamã.
Com a estrutura, os recursos e o poder que possuem, as grandes denominações existentes no Brasil, se quisessem e ouvissem a voz de Deus e o clamor das nações sem Cristo, bem poderiam suprir grande parte da carência do evangelho, entre os milhares de povos não-alcançados em todo o mundo, que nunca ouviram falar de Jesus.
O evidente descompromisso dessas denominações com os povos sem Cristo fica a dever uma resposta urgente, franca e concreta: a obra missionária vai continuar da mesma forma como vem sendo conduzida por anos a fio, ou vai ser dada a atenção necessária ao cumprimento daquilo que é a única razão da existência da igreja na terra, que é a evangelização dos povos?
Creio que, diante de um verdadeiro poderio à disposição da igreja contemporânea no Brasil, Deus faz a mesma observação que Mordecai fez a Ester: “Porque, se de todo te calares agora, de outra parte se levantará para os judeus socorro e livramento...; e quem sabe se para tal conjuntura como esta é que foste elevada...?”. Apenas que desta vez Deus tem em perspectiva todas as nações da terra em desespero e perigo de destruição iminente e eterna.
A situação é semelhante: as grandes denominações possuem capacidade e podem fazer infinitamente além do que têm feito. No entanto, elas têm transferido para pequenas igrejas isoladas, pobres e quase sem força, tamanho peso de responsabilidade. Isso, quando não procuram impedi-las de realizarem a obra, muitas vezes enciumadas de que o trabalho mexa com suas intocáveis, rígidas e pesadas estruturas.
Com isso elas têm permitido que o cruel, traiçoeiro e invejoso inimigo de Deus destroce as almas, perdidas nas trevas sem conhecimento da palavra de Jesus. Em vez dessa atitude, deveriam estender as mãos àquelas pequenas igrejas que, tendo pouca força, estão lutando para cumprirem sua missão, ajudando-as a puxarem suas redes.
É necessário mudar esse quadro! O tempo é agora! A hora é esta! Não tem sentido algum estruturas denominacionais fortes, porém ociosas, sem um ministério compatível com a estrutura montada. É como usar uma bomba atômica para matar uma formiga.
Se não houver um redirecionamento correto de suas atividades e não derem prioridade à evangelização mundial, não há dúvidas de que Deus, na sua justiça, pedirá contas a essas grandes denominações. Se elas não agirem, Deus certamente providenciará, em favor dos povos da terra, socorro de outra parte. No entanto, qual será o destino delas? É algo a ser considerado. Toda a atenção deve ser dada ao sábio conselho de Jesus à igreja de Laodicéia. É necessário ter prudência. É preciso sensibilidade para ouvir o que o Espírito Santo está dizendo e para onde ele está conduzindo as igrejas.
A maioria dessas denominações, surgidas de movimentos missionários, e que, no passado, inegavelmente, realizaram trabalhos dignos do Reino de Deus, deveriam retornar às suas origens e à prática de missões, que é a própria razão de sua existência.
Essas grandes denominações, através de seus líderes, não devem deixar Deus levantar de outra parte socorro para os perdidos. Esta é a conjuntura e o momento ideal para o qual tiveram a oportunidade e o privilégio de serem levantadas. Deus deu a elas a posição e as condições ideais para esta época. Será que perderão a oportunidade? Ou dirão como Ester: “...se perecer, pereci?
Somente aos seus líderes cabe tão importante decisão.
* Artigo publicado em 1989